Como a extrema direita tomou o Brasil (e como a gente toma de volta)

Então. O Brasil votou no dia 4 de outubro, e a extrema direita chegou em primeiro. Flávio Bolsonaro teve cerca de 47% dos votos, Lula cerca de 45%, e os dois se enfrentam de novo no domingo, 25 de outubro.
Pra quem não acompanha: Flávio é filho de Jair Bolsonaro. Jair é o ex-presidente que está cumprindo 27 anos de pena por tentar derrubar o resultado da última eleição, e foi da prisão que ele escolheu o filho pra concorrer no seu lugar. Flávio chama o pai de "a maior liderança política e moral do Brasil" e já prometeu tirá-lo da cadeia: com anistia, se o Congresso topar, ou com indulto, se não topar.
E não é só o Brasil. Trump voltou, Milei governa a Argentina, Kast acabou de ganhar no Chile. A extrema direita está vencendo em quase todo lugar, e os livros que ando lendo pro meu romance, sobre capitalismo, gênero e poder, me ajudaram a entender o porquê melhor do que o noticiário. Então aqui vai como eu acho que a gente chegou até aqui, e por que estou pedindo à nossa comunidade que apoie a esquerda no dia 25.
Como a gente chegou até aqui
Nada disso surgiu do nada. Uns dez anos atrás, a rede de proteção começou a sumir. Em 2016 Dilma Rousseff sofreu impeachment, e no fim daquele ano o Congresso congelou os gastos públicos por 20 anos: o orçamento só pode crescer com a inflação, não importa quantas pessoas a mais precisem de hospital ou de escola. Depois vieram a reforma trabalhista e uma lei liberando a terceirização de qualquer função. Menos segurança, mais corre.
A Wendy Brown descreve isso melhor que ninguém. Quando o mercado manda em tudo, são "o mercado e a moral" que passam a governar a vida das pessoas, e as únicas coisas que sobram pra segurar alguém são família, igreja e nação. Foi exatamente isso que o Jair vendeu em 2018. Pra milhões de brasileiros trabalhando sem carteira e sem rede de proteção, ele ofereceu Deus, família, armas e bandeira, e entregou a economia a um economista formado em Chicago que tinha dado aula no Chile de Pinochet.
E ele teve ajuda. Quem liderava as pesquisas naquele ano, o Lula, estava preso depois de uma condenação do juiz Sergio Moro, e foi impedido de concorrer. Dias depois da vitória de Bolsonaro, Moro virou ministro da Justiça dele. Três anos depois, o Supremo anulou as condenações do Lula e declarou que Moro tinha sido parcial. Meio tarde. Daniel Finn, num texto da Jacobin, usa o Moro como modelo de como funciona hoje: a democracia vale até ameaçar quem está no topo, e aí os tribunais dão um jeito. Nem precisa de tanque.
E ele teve uma bruxa. Em 2017, na porta de um seminário sobre democracia em São Paulo, queimaram um boneco da filósofa Judith Butler vestida de bruxa. Em 2018 esse pânico já tinha uma campanha inteira por trás: Bolsonaro disse ao país que o Ministério da Educação estava mandando um "kit gay" pras escolas. Era mentira (era uma versão distorcida de um projeto contra a homofobia nas escolas que nem chegou a sair do papel), e o TSE mandou tirar os vídeos do ar. Enquanto isso, empresas pagavam disparos em massa no WhatsApp contra o PT, e o TSE depois reconheceu que um esquema ilegal de disparo de fake news existiu. Bolsonaro ganhou com 55%.
A Butler depois escreveu um livro inteiro sobre como isso funciona. O pânico em torno do "gênero" absorve medos que têm causas bem reais (aluguel, emprego, um sistema de saúde caindo aos pedaços) e aponta pra uma professora, uma drag queen, uma criança trans. E a Silvia Federici mostra, em Calibã e a bruxa, que a caça às bruxas na Europa veio junto com o nascimento do capitalismo, e perseguiu mulheres, pobres e qualquer um que não se encaixasse. Por isso eu ri quando o Trump, anunciando uma tarifa de 50% contra o Brasil em 2025, chamou o julgamento do Jair de "caça às bruxas". Caça às bruxas de verdade nunca vai atrás dos poderosos.
A versão educada
Bolsonaro governou exatamente como prometeu. Acabou com o conselho nacional de combate à discriminação LGBT. Disse que o Brasil não podia virar país de turismo gay porque "temos famílias". Quando um repórter perguntou sobre uma investigação no antigo gabinete do Flávio, respondeu que o repórter tinha "uma cara de homossexual terrível". O Brasil perdeu mais de 700 mil pessoas pra covid. Ele perdeu a eleição de 2022 por um triz, e em 8 de janeiro de 2023 os apoiadores dele invadiram e quebraram o Congresso, o Supremo e o Planalto. No ano passado ele foi condenado por tentativa de golpe, e entre as provas havia um plano pra matar o Lula.
Agora é a vez do filho, e ele resolveu suavizar a imagem. Pesquisas internas mostraram que eleitores moderados o associavam aos militares, então ele começou a elogiar o carnaval e a curtir posts sobre "a liberdade de todos". No meu romance, o sistema que tira a cor das pessoas é educado, bem alimentado e tocado pelos seus vizinhos. Ele nunca grita. Ele manda um formulário. Esse é o Flávio.
Então leia o formulário. O plano de governo dele não menciona pessoas LGBTQIA+ diretamente. O mais perto que chega é tirar meninas e mulheres trans do esporte feminino, das categorias de base pra cima. Diz que são os pais que decidem os valores que os filhos recebem, o que no Brasil há muito tempo é código pra "não fale de gênero nem de sexualidade na escola". O partido dele apresentou 285 projetos anti-LGBTQIA+ desde 2019, e em 2023 uma comissão da Câmara aprovou a proibição do casamento homoafetivo com relatório de um deputado do PL. A maior parte dos direitos que pessoas LGBTQIA+ têm no Brasil veio do Supremo, não do Congresso, e o próximo presidente vai indicar pelo menos três dos onze ministros.
Na segurança, ele quer que jovens de 16 anos sejam tratados como adultos pela Justiça, e os de 14 nos crimes mais graves. Em agosto, prometeu que bandido vai ser tirado de circulação "em pé ou deitado". É o partido do governador que, no ano passado, comandou a operação policial mais letal da história do Brasil, no Rio: 121 mortos em um dia. A Angela Davis escreveu que a prisão deixa uma sociedade fugir dos seus problemas de verdade. O "deitado" é a versão expressa.
Por que a esquerda, e por que a gente
Votar contra o Flávio não é o trabalho todo. O alerta da Nancy Fraser é o que eu sempre volto a ler: se a esquerda só oferece diversidade no cartaz enquanto os bancos continuam mandando, a raiva continua, e isso prepara o terreno pra "futuros Trumps, cada vez mais cruéis e perigosos". O que funciona é as duas coisas juntas. Direitos e salário. Saúde trans e imposto sobre os ricos.
É assim que política de esquerda se parece, e uma parte já está aqui. Desde janeiro, ninguém no Brasil que ganha até R$ 5 mil por mês paga imposto de renda, e isso é pago com um imposto mínimo pra quem ganha mais de R$ 600 mil por ano. O Bolsa Família voltou, com um extra pra cada criança pequena. O governo Lula criou a primeira secretaria nacional dos direitos LGBTQIA+ e colocou uma travesti, Symmy Larrat, no comando. O plano do Flávio não tem nada pra gente.
É suficiente? Não. O Lula também sancionou uma lei que proíbe linguagem neutra como "todes" na comunicação oficial, e grupos LGBTQIA+ que apoiam ele dizem que o orçamento da área é pequeno e que a saúde trans vive sendo adiada. Votar no Lula é onde o trabalho começa, não onde termina. Mas existe uma diferença entre um governo contra o qual você precisa lutar e um governo que vê você como o problema. O primeiro te dá um chão pra pisar enquanto você luta.
E vai ser mais difícil do que antes. No mesmo dia, o Brasil elegeu um Senado que pende com força pra extrema direita. A partir de fevereiro, só o partido do Bolsonaro vai ter 28 dos 81 senadores, a maior bancada, e com os aliados passa de 40 cadeiras: maioria. Isso basta pra escolher o presidente do Senado, que decide se um pedido de impeachment de ministro do Supremo anda ou não, e é o Senado que aprova quem o próximo presidente indicar pra corte. A Câmara já era dominada pela direita e pelo centrão. Então, mesmo que o Lula ganhe, cada direito nosso vai ser disputado no Congresso pelos próximos quatro anos. Isso não é motivo pra desistir. É o motivo de o dia 25 importar tanto: um presidente que indica os ministros do Supremo, pode vetar leis e comanda os ministérios é um dos poucos freios que ainda restam.
E essa luta é nossa porque a maioria de nós não está em cima do trio elétrico na Parada. A gente está fazendo o turno, alugando o quarto, esperando na fila do posto. O termo "política identitária" foi cunhado em 1977 pelo Combahee River Collective, feministas negras e lésbicas que se diziam socialistas. Elas nunca separaram quem eram de como viviam e trabalhavam, e a gente também não deveria. Há quase 18 anos o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Logo de arco-íris não resolve isso. Salário, posto de saúde, escola e tribunal talvez resolvam.
Se você é brasileiro e vota na Austrália, o segundo turno é no domingo, 25 de outubro, das 8h às 17h, e no exterior a gente vota só pra presidente. Confira seu local de votação no app e-Título. Se não puder votar, liga pra casa. Responde seu tio no grupo da família, não com sermão, mas com uma história. E se tiver amigos brasileiros por perto, pergunta se eles vão votar.
Por que isso é pessoal
Eu não apoio a esquerda por causa de um livro. Apoio por causa da casa onde eu cresci.
Em 1997 eu era um menino pequeno no sofá, no Brasil, quando o jornal mostrou a primeira Parada na Avenida Paulista. Alguém na sala disse que queria que uma bomba caísse ali no meio. Com os anos eu ouvi muito mais coisa assim, de gente que eu amava: em volta da mesa do jantar quando um primo se assumiu, no púlpito aos domingos, no caminho de volta das aulas de teatro que eu não pude continuar fazendo. Ninguém gritava. Era só o que se dizia.

Eu amo essas pessoas, e penso nelas o tempo todo. Ninguém ali era monstro. Elas repetiam o que a igreja, a TV e todo mundo em volta dizia, do mesmo jeito que tanta gente boa repete a extrema direita hoje. É exatamente por isso que eu não consigo ouvir isso como "só conversa". Quando um presidente diz a um repórter que ele tem cara de homossexual, ou uma campanha inventa um "kit gay", eu sei em quais salas de estar essas palavras caem, e o que elas autorizam gente gentil a dizer no jantar. Passei anos tentando colocar essas salas no meu filme de animação, Trauma, em que uma sombra no canto fica sussurrando: se esconde, se enquadra, seja hétero. Quase tudo o que ela sussurra eu ouvi primeiro de gente de verdade, com as mesmas palavras que a extrema direita usa hoje no palanque.

Também é por isso que uma frase do plano do Flávio me assusta mais do que o resto: são os pais que decidem os valores que os filhos recebem. O "kit gay" era uma mentira sobre um projeto contra a homofobia nas escolas que nem chegou a existir. Eu não precisava de kit nenhum. Eu precisava de um adulto, em algum lugar, que me dissesse que eu estava bem. Essa frase deixa crianças como eu só com o que ouvem em casa, por mais que a família as ame.
E tem o dinheiro. Quando escrevi meu próprio elogio fúnebre, através de um personagem chamado Jonas, achei que ia ser sobre ser queer. Metade acabou sendo sobre dinheiro: os uniformes, as contas na parede, abrir mão da coisa que fazia ele se sentir livre porque não dava pra pagar. Homofobia e pobreza trabalham em dupla. A criança que não tem como sair de um lugar onde não pode ser quem é fica ali. O adulto que não tem dinheiro pra caução do aluguel, pra terapia ou pra uma passagem fica preso também. Por isso as coisas chatas (imposto, salário, Bolsa Família, SUS) são política LGBTQIA+ pra mim. Liberdade custa dinheiro, e só um lado nesta eleição está pelo menos tentando dividir.

Em Trauma, o homem adulto não se liberta fingindo que a sombra foi embora. As janelas se abrem, e ele olha pra ela de frente. É assim que o dia 25 de outubro parece pra mim. Aconteça o que acontecer, a extrema direita não vai a lugar nenhum. A gente também não. Eu só prefiro enfrentar isso num país com as janelas abertas. Eu voto pelo chão.
Quer ir mais fundo? Estão na minha estante: Wendy Brown, Nas ruínas do neoliberalismo; Judith Butler, Quem tem medo do gênero?; Silvia Federici, Calibã e a bruxa; Nancy Fraser, O velho está morrendo e o novo não pode nascer; Angela Davis, Estarão as prisões obsoletas?; e o texto de Daniel Finn na Jacobin Brasil, "Conservadores e liberais não suportam a democracia".